O FUMO DE ANGOLA
12/17/20258 min read


Maconha, fumo de Angola, fumo de caboclo, macumba.
Falar sobre maconha ainda é meio polemico. Não deveria, mas é tão mal debatido que parece até crime.
Sendo de terreiro então? Já ouço até o discurso: lá vai o drogado adorador do demônio.
Só que a gente não pode mais deixar esse assunto no esquecimento, principalmente nos líderes de casas ancestrais.
Se você frequenta a Macumba, a Umbanda, a Jurema, a Quimbanda, o Tambor de Mina saibam que esses espíritos que se manifestam das duas, uma: ou plantaram, ou usaram.
A maconha, a diamba, liamba, fumo de Angola, fumo de caboclo e Macumba, como também foi chamada, sempre foi o remédio e o lazer de quilombos a aldeias. Esquecer que ela faz parte é um apagamento preconceituoso.
Você já deve ter ouvido que quem fuma um (para alguns, quem usa drogas) afasta os ancestrais e os Orixás de si?
Se não, agradeça.
Mas isso já foi pauta. O pior é que, até hoje, elas acreditam nisso, mesmo sabendo as propriedades de cura que essa planta traz.
Tanto que o preceito sempre fala: bebida, carne e sexo. Não coloquem maconha nisso porque eles sempre vão demonizar quem usa.
Esse post não é uma apologia. É história. É fundamento.
E antes de achar que aqui é uma bagunça sem sentido, não é. Na camabantu somos adeptos do bom senso.
Não tem uma proibição se quer e te garanto que ninguém passa vergonha.
Então vamos falar sobre ela: a erva.
A ancestralidade da Maconha.
Maconha é um anagrama de cânhamo.
A erva chegou no Brasil, e foi no dia 22 de abril de 1500, em porto seguro, que indígenas avistaram as caravelas e nelas surgia um cheiro bastante peculiar. Era uma mistura de burguês fedendo naquelas roupas imundas com algo diferente.
As embarcações eram todas elas feitas de cânhamo, que é uma das variações da canábis sativa, conhecida como a maconha careta, que não tem o THC.
O uso é muito mais antigo que você imagina.
Uma das primeiras referências documentadas sobre o uso da maconha vem da China 2300 anos antes de Cristo, com o lendário Shen kung.
Heródoto, o pai da História, regista o uso pelos Citas, um povo que se situa no local que hoje é a Síria.
Portugal na epoca era um dos principais produtores de cânhamo que era usado em quase tudo: Fibra, corda, velas, tecidos, etc.
Manuel Pio Correa, um botânico muito renomado que o país teve, afirma que a Maconha, a diamba, aliamba, o fumo de Angola, chega ao Brasil, depois do cânhamo com os Portuga, em 1549 pelos escravizados de Angola, que traziam em bonecas de pano com sementes dentro.
E assim nascem as primeiras plantações de liamba.
Um padre jesuíta descreveu o provável uso da canábis intencionada entre os pretos no final do século XIV para doenças como asma, dores de cabeça e estômago.
A erva sagrada acaba caindo no gosto de alguns indígenas, que aqui no Brasil faziam o uso ritualístico do tabaco.
A você me fala, erva sagrada?
Sim, erva sagrada.
A palavra maconha vem de Ma'kana, da etimologia Quimbundo, que em sua tradução é erva sagrava.
Edson carneiro, autor de um belo livro do quilombo dos Palmares, relata que havia o consumo do fumo de Angola, que pitavam com um canudo de taquara, com água, que ajudava a esfriar a fumaça e com Cachimbos de tocos de palmeira com uma cabaça na ponta.
O cânhamo vira monopólio estatal em Portugal em 1783 e é produzido no Rio Grande do Sul, em São Leopoldo, tanto que Uma das primeiras fábricas da história Brasileira é de cânhamo, acredite se quiser.
A proibição.
Se você acha um cúmulo, em pleno 2025, o mundo ainda não ter adotado o uso medicinal e recreativo da maconha, saiba que teus pais foi um dos precursores mundiais nesse role todo, e claro, fazendo jus a seu caráter de colonizado, falando como se fosse colonizador e com pitadas extremamente racistas.
Em 1830, a lei do pito do pango é o primeiro registro de proibição no Brasil.
A lei falava exatamente assim:
"É proibida a venda e o uso do" Pito do Pango", bem como a conservação dele em casas públicas: os contraventores serão multados, a saber, o vendedor, em 20 000, e os escravos, e mais pessoas que dele usarem, em 3 dias de cadeia.'
Basicamente uma lei racista, que proibia o preto escravizado de ter a lembrança das suas raízes e do seu local de origem, onde, mesmo em situação de extrema vulnerabilidade, queria ter um pouco de paz e nem isso os senhores deixaram.
Pito era uma referência ao fumo e pango é uma referência usada ao cachimbo.
A maconha sempre foi parte da farmacopeia mundial.
A erva chega a se tornar mundial com o tempo e vai até indígenas norte-americanos, onde usam com o tabaco para selar a paz, daí o vulgo tão famoso cachimbo da paz, pois eles também usavam a erva em cachimbos.
Essa história toda não pode passar sem mencionar uma das primeiras maconheiras famosas do Brasil, a imperatriz Carlota Joaquina, donde existem alguns relatos de que seus escravizados faziam o chá da erva para ela, pois ela tinha fortes dores de cabeça e nada que uns pegassem na diamba para passar a forte dor.
Mesmo com a lei do pito do pango pegando fogo no Brasil, os jornais da época divulgavam em suas páginas algumas propagandas de cigarro que continham a tal da canábis.
Um exemplo é dos cigarros índios, que era feito com a erva e ajudava na respiração, roncadura, etc.
O Brasil foi um dos principais líderes da proibição mundial e isso acontece na conferência contra o ópio em Genebra no ano de 1924, mediante Pedro Jose pernambucano filho, o mesmo que no ano anterior foi ao mesmo local e disse que ninguém que ficava privado ao fumo de Angola morreria, pois não havia relatos de mortes através do uso, mas mesmo assim, no ano seguinte, foi o primeiro a estar lá ajudando a propagar a proibição da maconha representando o Brasil.
Liderados pelo Brasil e os EUA, a maconha é banida das farmacopeias e entra como produto ilícito ao consumo.
Com o golpe de 1964, tudo piorou.
Já não se fazia mais divisão entre usuário e traficante.
Porém, a arte e a música entram nesse jogo, virando um pouco do entendimento sobre.
Muitos músicos de jazz americanos começam a usar maconha e isso se alastra pelo mundo, usando artistas, músicos e por diversas pessoas que utilizam expressões corporais e rítmicas.
Com isso, vêm os anos 80, rock in Rio, Woodstock e a maconha volta a se popularizar.
Mas mesmo assim, não sai do alvo governamental, fazendo que aumente mais ainda o preconceito e a falta de entendimento entre o usuário e o traficante.
Erva de preto, escravizado, africano, indígena.
Então, dá para saber bem como anda nosso país atualmente, né?
O racismo estrutural fez com que cadeias superlotassem, o pobre sem direito a uma defesa justa, o preto, já marginalizado desde sempre, ainda sendo em maior número nos presídios pelo nosso país.
Maconha e a macumba.
Ewé Igbó é o nome da folha que em alguns cultos é relacionada a Oxalá, a Ossain, mas a principal ligação com Exu, por ser uma folha conhecida por seu intermédio dos mundos dos deuses com a vida terrena.
Era usada em rituais nas antigas macumbas, nos catimbós, nos tambores de mina e até em diversas nações de candomblé.
Mas a galera dava uns doizinhos antes de ir para a macumba?
Talvez antes não, mas durante, sim.
Os terreiros que têm sua base vivida na cultura negra como resistência às crenças brancas impostas à revelia usavam a ganja, utilizada devido aos efeitos psicotrópicos e também pelas qualidades terapêuticas, que com a sabedoria fitoterápica, os macumbeiros mantiveram o aspecto sagrado da erva, fumando para provocar o êxtase nos pais e mães de santo e demais filhos.
Provavelmente identificada com algum orixá ou espírito ancestral, que era utilizado como oferenda ou em rituais de proteção contra trabalhos maléficos.
Os trabalhos com a folha, que servia como defumador, banho e usada em chás ou fumada, eram sempre usados como proteção, descarrego, mas o principal fundamento era ligar o aiê com o orum, ligando o filho com a vida sagrada dos deuses.
Até hoje, em algumas religiões, como a dos rastafáris, por exemplo, o uso da ganja é também espiritual.
Os rastas usam a canábis em seus rituais para se aproximar de Jah, que acreditam que os efeitos ajudam a induzir paz, amor e ajuda na descoberta da divindade interior.
Os vedas, que são textos sagrados do hinduísmo, descrevem o uso da erva e falam que suas folhas têm uma espécie de anjo que é a fonte da felicidade.
Nas festividades hindus, como o holie festival e a Shivratri, usam a canábis numa bebida que leva o nome de Bhang.
Nas macumbas não seriam diferentes.
Religião de preto que traz suas essências de vida e seus processos mais difíceis, como a escravidão, é claro que teria a relação com sua diamba, liamba, fumo de Angola.
Mas, com toda a cultura sendo invadida e roubada, com toda a ideia conservadora, racista e fascista tomando conta das pessoas, o culto foi embranquecendo, tirando tudo que tinha uma relação com aqueles que recebem o nome da religião, tornando terreiros como um antro de fascistas preconceituosos.
É triste.
Triste é ver uma liderança expondo, expulsando, tratando o seu filho de fé como um infrator ou um traficante, mau elemento, pelo uso recreativo da canábis.
É por isso que a luta contra a descriminalização faz com que ainda as pessoas criem a consciência de que a erva de Angola não mata, não destrói.
É uma das poucas folhas que tem dentro de si toda a cura.
Mas parece que o sistema não quer ver ninguém bem, feliz, curado.
Agora algemado, em cana, ou apanhado da polícia, sim. Isso dá dinheiro, né?!
Infelizmente o retrato que estamos inseridos, é uma realidade onde a erva se torna ilegal, abastece o tráfico, e por muitos anos, a única fonte de descolar a ganja, era através do crime, onde automaticamente, o uso fazia com que você aumentasse a questão criminal do seu estado, onde o governo coloca o usuário como traficante.
Uma questão que poderia ser tratada como saúde pública vira artigo na constituição onde tira o réu primário do usuário, mostrando que prender alguém é muito mais fácil do que tratar alguém, seja lá qual for o tipo e o nível do tratamento.
Esse texto é sim um grito para a tal legalização da erva, mas não é um estímulo para que você, filho de pemba use somente porque muito provavelmente seus ancestrais usavam. Não caia nessa.
É importante falar, trocar informações, sejam elas quais forem, sobre tudo o que envolve a ancestralidade. E isso, não pode ficar de fora.
Talvez você, sabendo de tudo isso, faça com que você tire o preconceito de lado e ajude a fazer com que essa erva milagrosa ganhe espaço no tratamento de doenças e saia do caráter criminal.
Isso só depende de nós!
Sarava!








