"Eu não estou aqui pra mudar a vida de ninguém." (Pai Chico da Guiné)

12/17/20252 min read

"Eu não estou aqui pra mudar a vida de ninguém."
(Pai Chico da Guiné)

Numa dessas conversas no chão do terreiro, o Preto Velho dizia isso com firmeza. Ele falava sobre essa ideia que muita gente cria de que um terreiro tem, por obrigação, transformar a vida de alguém.

Muita gente chega colocando suas frustrações num espaço que, na verdade, não tem o dever de se responsabilizar pelas escolhas de ninguém. Afinal, cada um tem seu caminho, mesmo que tudo ali aconteça de forma coletiva.

Por outro lado, tem casa por aí que ilude, promete mundos e fundos: diz que, ao desenvolver sua espiritualidade, tudo vai dar certo, que sua vida vai andar, que você vai ganhar carro, casa, dinheiro, status e etc.

É uma mistura de fantasia com romance mediúnico, naipe aqueles do Rubão. Uma loucura coletiva.

E a gente sabe que não é assim.

"Mas, Pai Chico, então o que um terreiro tem obrigação de fazer?"

O terreiro não tem obrigação com nada além de ensinar seus filhos a se relacionarem com seus ancestrais e com os outros mortos e vivos, de forma coletiva e respeitosa.

A função do terreiro é cuidar da espiritualidade da comunidade e de quem caminha ali.

É uma prática que envolve ancestralidade, magia, fundamento e também dedicação, envolvimento, amizade, família.

E claro, a vontade real de fazer o bem.

Porque não tem nada de bonito em frequentar terreiro pra querer bancar uma moral, enquanto falta respeito e valor dentro de casa. Quando a gente caminha com verdade, o bem se espalha: em casa, no trabalho, com a família, com o mundo.

Mas não é Seu Chico quem vai fazer isso por você.

É você quem precisa se mover — mudar sua vida, pois depende do quanto você se coloca disponível pra isso pra isso de fato andar.

Tem muita coisa que precisa ser trabalhada em você antes mesmo de querer entender o que é religião.

Terreiro não muda vida.
Espírito também não.

O que eles fazem é entregar ferramentas. E é com elas que você constrói seu caminho — se quiser, se tiver coragem.

Por isso, o terreiro não deve ser o único lugar onde você se sinta acolhido. Essa sensação precisa acontecer também no seu trabalho, no lazer, em casa, na rua... e aí, sim, fazer sentido dentro do terreiro.
Porque senão, o terreiro vira depósito de frustração e os irmãos, a casa e até Seu Chico viram culpados pela sua vida não sair do lugar.
Espiritualidade é coisa séria demais pra virar palco de ego frágil, onde o sujeito acha que tudo em volta tem que mudar — ou levar a culpa — por aquilo que ele mesmo não quer ou não consegue enfrentar.